A Sombra Alada

Aline Guien como Matita no Baile dos Vilões, Outubro 2025.

“O artista não inventa esses símbolos, ele é atravessado por eles.
Eles chegam como visitantes noturnos.
Às vezes como fantasmas, outras vezes como guias.”

Ela me visitou em sonho enquanto eu estava em uma viagem por Salvador, dezembro de 2024.

Uma Harpia enorme vinha voando na minha direção, os olhos escuros como a noite atravessaram minha alma, suas asas tão grandes e majestosas, ela planou até me alcançar, quando suas enormes garras se cravaram em meus ombros, acordei trêmula e gelada apesar da noite quente de verão.

Não consegui mais dormir.

Eu sabia que tipo de sonho era aquele.

Era o tipo de sonho que parecia mais um aviso, um anúncio, um sinal.

Sonhos de aviso sempre deixam um silêncio assombroso na casa logo quando você desperta… é o tipo de sonho que faz você se levantar de madrugada e caminhar pela casa contemplando o breu e percebendo o quão ensurdecedor o silêncio pode ser, eles parecem berrar mesmo sem proferir nenhum som. Me lembro de andar pela casa, olhar pela janela e observar enquanto o céu lentamente assumia tons mais claros, cinzentos, azulados, lilás e amarelo. Lá estava a alvorada novamente, uma hora mágica e mística de silêncio.

Não voltei a dormir, passei a manhã inteira intrigada com o sonho, com aqueles olhos negros, com aquelas garras e asas, pensei que pela tarde já não iria mais me importar e deixar pra lá… Mas quando a noite chegou, o estalo em minha mente pareceu mais um golpe.

Eu já conseguia vê-la.

Uma mulher-pássaro, daquelas que voam na madrugada, uma Harpia, uma Coruja, a Matinta Pereira.

Eu podia ver essa mulher tomando conta de mim, se apossando de meus membros, de meu pescoço, minha coluna, respirava o mesmo ar que eu, seu coração batia no mesmo ritmo que eu, se movia do mesmo jeito que eu… Era eu.

Suas asas, suas vestes, seu rosto, sua dança…

Eu precisava honrar aquela aparição.

Durante meses elaborei tal projeto com tanta dedicação que confesso que todos os outros projetos ficaram em segundo plano. Este projeto tinha que ser grandioso, tinha que ser impactante, memorável… Pelo menos para mim, em honra àquela força e àquela potência que senti quando vislumbrei sua dança, seus movimentos ameaçadores, intimidadores, envolventes. Trazer ela para a matéria era um segredo, eu tinha receio de que qualquer coisa pudesse ultrapassar sua presença, mantive-a oculta e protegida até finalmente estar formada, forte e pulsante.

Tantas coisas deram certo e errado durante a elaboração desta performance… As músicas eram tantas, ela se encaixava perfeitamente em tantos conceitos e atmosferas, o figurino quase não ficou pronto em tempo para a apresentação, eu não tive espaço para treinar com as asas, que tinham 3 metros de envergadura, até mesmo o par de lentes de contato vieram errado e só encontrei o modelo certo no exterior. Mas magicamente, faltando pouquíssimo para a estreia, o figurino chegou, as asas já não eram estranhas para mim, os acessórios estavam em harmonia e até mesmo a lente certa foi encontrada para compra e chegou em tempo. Não haviam mais desculpas para que ela não surgisse das sombras.

E ela nasceu em ouro velho, um contraste com a sombra, eu não queria que ela fosse toda escura, eu queria que ela fosse o feixe de luz de uma lâmina na escuridão, um corte preciso, um vislumbre, uma aparição.

Demorou 11 meses pra que o projeto pudesse nascer, e quando ela finalmente estreou no palco pude finalmente entender que aquela visão não havia somente me arrebatado, ela arrebatou a todos.

Confira sua estreia.

Anterior
Anterior

A Criança Eterna

Próximo
Próximo

Aahmes - A Mãe das Serpentes