O Curandeiro do Riso
Aline Guien como Nuvirah na Noite Eterna dos Contos, Novembro 2024.
Em meio à dor e ao drama mais profundos, existe um arquétipo que detém o remédio mais potente para todos os males: o Cômico.
Não o confunda com o vulgar ou o superficial. O Cômico é, na verdade, um verdadeiro gênio com uma mente altamente avançada. O humor exige uma visão de longo alcance, a capacidade de “ver a situação de longe” em vez de ser levado pelo drama.
O Comediante aceita a bagunça da vida, a nossa, a dele, a do mundo, e usa-a como material para uma poção mágica que acalma a mente estressada e séria. Ele é o Mago que transforma o caos em alívio. Ele é a prova de que o riso não nega o sofrimento, mas nos eleva para fora da escuridão.
No entanto, cuidado com sua sombra. O Cômico tem suas “garras afiadas”: o sarcasmo, a aspereza e a melancolia. Quando a inteligência do humor é usada para ferir em vez de curar, o alívio se transforma em amargura.
Na sua face luminosa é hilário, engenhoso e tranquilo. Seu humor pode ser a cura que quebra a divisão do mundo, um trocadilho de cada vez. Você não apenas se alivia, mas alivia todos que lhe dão ouvidos.
Manter a mente afiada, o coração leve e o riso fácil. A tranquilidade é o sinal de que o Cômico está trabalhando sua magia curativa em você.
Este arquétipo é um alívio depois de uma turbulência, ele não necessariamente nos oferece acolhimento em nossas dores, mas trata as nossas angústias com leveza e graça, como um lembrete sutil de que não estamos aprisionados em nosso sofrimento. O Cômico age como quem abre uma fresta da janela de um quarto escuro para deixar a brisa fresca entrar, dando alívio repentino para toda aquela atmosfera abafada de tormento.
A existência do riso parece, muitas vezes, improvável diante de algumas situações, e este arquétipo é uma espécie de rebeldia, um afronta, uma resistência.
O riso pode sim ser uma arma.
Uma arma contra provações, opressões, penitências.
Porque ele é inesperado e muitas vezes indesejado.
Indesejado por aqueles que não querem ver quem sofre sorrindo, não querem ver quem chora com os dentes à mostra, não querem ver quem se aflige se libertando do peso que carrega sobre os ombros.
O riso nos força a inclinar o tronco e pender a cabeça para trás, relaxar a mandíbula, soltar a tensão nos ombros e na lombar, até mesmo bater palmas e os pés. O riso pode ser um exorcismo de nossos fantasmas melancólicos.
E é por isso que ele é tão poderoso.
Ele vem como uma força inevitável para aqueles que menos o esperam, um alívio de dentro pra fora, um respiro em meio ao oceano sufocante de mágoas.
Como artistas, este ato de trazer a comédia para as tragédias é o que ilumina a dor no palco. Tentar ver graça naquilo que dói profundamente, expressar isso de maneira leve para abordar assuntos e feridas pode ser mais impactante do que encenar nossa maior miséria.
Este é o poder do Cômico: ele é improvável, revoltante, afrontoso, causa espanto e expande a consciência e a compreensão das dores de uma maneira muitas vezes mais eficaz do que a seriedade.
Ele é capaz de tocar você em lugares onde você não constrói muros.
Ele é capaz de acessar seus sentimentos onde você não ergueu escudos.
Ele sabe que alguns indivíduos evitam assuntos densos, sérios e complexos por não suportarem a carga emocional e de responsabilidade que eles carregam, estes indivíduos protegem-se e fogem de tais dinâmicas de profundidade intelectual, afetiva, filosófica. Estes indivíduos são aqueles que buscam alívio cômico como escapismo. Por exemplo, pessoas que gostam de filmes com atuações e enredos leves, sem seriedade, que não estimulam o pensamento analítico ou crítico. O cômico é tão poderoso que consegue ter acesso aos sentimentos, pensamentos, memórias, traumas e bagagens destes indivíduos ditos como esquivos. Ele consegue chegar com disfarce de riso e piadas para dentro de assuntos que estes indivíduos evitam a todo custo. Ele atinge o ponto exato sem pontuar termos complexos, sem indicar temas delicados ou palavras que possam engatilhar. Ele consegue entrar na mente daqueles que se defendem da profundidade dos sentimentos, daqueles que ficam na borda do abismo por medo de encarar a verdade das coisas. E o Cômico os empurra de maneira divertida para dentro deste abismo, pega-os de surpresa, mostra os reflexos sem que os indivíduos percebam o que ele está fazendo, pois sua consciência vem camuflada de brincadeiras e piadas. Ele é um jogo poderoso e uma forma muito singular de trabalho das sombras.
E ele não é cruel por isso.
Ele não é malvado, muito menos o vilão.
Ele é tão descontraído que é praticamente impossível sentir raiva quando você se dá conta do que ele fez.
Ele consegue pegar a todos quando estão distraídos. A comédia distrai e esse é o superpoder dele: entreter para enfim passar sua mensagem.
É um artista de rua que faz poemas livres sobre o cotidiano de maneira divertida;
É um comediante com duras críticas sociais veladas de piadas;
É um bardo que canta canções engraçadas carregadas de mensagens de propagandas revolucionárias;
É uma dançarina que erra um passo em cena e faz piada de si mesma para cativar a plateia;
É uma atriz que aproveita o palco para denunciar um caso de adultério na grande elite que a assiste de maneira lúdica.
Existem tantas maneiras de abordar o Cômico.
Ele é a arte do riso por natureza.
O Cômico nos torna mais humanos.
Ele não é um arquétipo de simbolismo mitológico, superpoderoso, intrigante, fantasioso, épico. Não é um dragão dourado, não é um deus antigo e adormecido, não é uma providência. Ele é uma inclinação da humanidade, uma tendência comportamental natural do ser humano.
Ver a graça além da dor.
O Cômico pode ser muito relacionado à Sublimação de Freud.
O Cômico é uma fonte poderosa de transformação.
“Eu sou a prova de que a alegria é o antídoto mais avançado contra a dor do mundo.”